2000
Grande Circo Real

Carta a Marcela
Os actores não amadurecem como as maçãs, estão sempre frescos e salgados como o Oceano. Os artistas de circo são actores em ponto de rebuçado, Anjos de Salsa e Música.
Quando começamos a escrever esta peça, lembrámos a nossa infância de circos mágicos como músicas de Natal. O circo e o Natal atravessam ainda a nossa vida, como o pão e o funcho. Escrevemos e dançamos, brancos, por dentro das bolas e dos círculos, das letras, que a Sónia, e Carlos e o Nuno abrem agora sobre o palco.
Ser dramaturgo é como ouvir o nosso remorso em bocas emprestadas. Durante estes meses, recordei o poeta Bernardo Santareno e o seu poema de circo: “Cai já trapezista / cai trapezista / não te suporto mais / desequilibra-me o teu equilíbrio”. Maior inspiração, ainda, o poeta José Gomes Ferreira; “Vá (Marcela), faz-me mais uma surpresa / e qualquer dia / sairá do camarim um palhaço / com uma estrela verde na boca”. E o Marujo responde: “o abraço / é um laço / a apertar / muito doce / que não fosse / de magoar.” (quadra popular). Contudo, o tema geral está em Gomes Ferreira: “Numa praça / a ilha da minha infância / um palhaço pobre / dependura numa corda / e tendas degoladas bem lá no céu pelo vento / – pobre palhaço de olhos vermelhos, dás sempre a tua gargalhada singular”.
Curvo-me perante a enxada e o trabalho de todas as pessoas deste Circo Real. Obrigado Marcela.
Carta a José Gil e à “Contigo Teatro”
Enquanto escrevemos, as palavras debatem-se no interior do nosso próprio silêncio. As personagens que desenhamos são bidimensionais: semelhantes às folhas de papel. Mas quando alguém as descola dessa existência, dando-lhes por fim a liberdade e a autonomia que desde sempre lhes estão destinadas, acontece o milagre do Verbo encarnado em corpos que falam, vibram e sentem.
O que é escrever para teatro? A esta minha pergunta, querido José Gil, respondeste que teatro é espectáculo. Ou seja, antes de as palavras receberem a dita libertação, elas pouco sabem de si próprias. Só então ganham o sentido da sua existência – quando as cortinas se abrem sobre o palco. De repente o silêncio do autor enche-se vozes. Nestas ele reconhece as palavras escritas, mas nunca antes de escutadas. Contudo no final do espectáculo, as mesmas desaparecem e ele retorna à sua antiga solidão.
Só que na realidade do teatro nunca ninguém fica sozinho. A Pintas, o Marujo e o Fred já existiam antes de nós nos inventarmos. Eles eram (são) Sónia, o Nuno e o Carlos. Obrigada por terem trazido à terra as almas que antes pairavam como perdidas no escuro silencioso da minha mente.
Marcela Costa
Ficha Técnica
Texto original: José Gil e Marcela Costa
Encenação: Carlos Varela
Interpretação: Sónia Pereira, Nuno Barcelos e Carlos Varela
Direcção de actores: Dinarte Freitas
Cenografia: Marcela Costa e Alzira Maltez
Guarda-roupa: André Correia
Desenho de Luz: Carlos Varela, Dinarte Freitas e Alzira Maltez
Adereços: Dinarte Freitas e Helena Freitas
Caracterização: Sónia Pereira
Sonoplastia: Marco Nóbrega (XL)
Luminotecnica e apoio a montagem do cenário: António (Tó) Freitas
Contra-regra: Dinarte Freitas, Fábio Dominique, Marina Ornelas e Margarida Menezes
Carpintaria: Marco Rafael Figueira
Ajudantes de Carpintaria: Bráulio Alturas e Luís Tavares
Técnico de fibra de vidro: Carlos Alberto Mata
Costureira: Teresa Gonçalves
Ajudantes de Produção: Fábio Dominique, Marina Ornelas e Eduarda Costa
Assessora de Imprensa: Alexandra Costa
Apoios e Patrocínios
C.M.F. / Departamento de Cultura
C.M.F. / Departamento de Obras Públicas
Direcção Regional de Juventude
Secretaria Regional de Educação
Direcção Regional dos Assuntos Culturais (DRAC)
SRE / Centro de Recursos Audio-Visuais
Atelier André Correia
TSF / Madeira (101. FM)
Diário de Notícias
Agradecimento Especial
Cine Teatro Santo António e respectivos funcionários
Teatro Experimental do Funchal (TEF)
Arte (Associação Regional de Teatro)
Manuel Rodrigues
Carlos Alberto Machado
Grupo de Teatro “O Moniz”
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